Nos últimos meses, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, tem buscado suavizar a imagem associada ao bolsonarismo radical, adotando um discurso mais moderado para ampliar seu alcance eleitoral, sobretudo entre mulheres e eleitores independentes. Mas, na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo g1, a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pode comprometer essa estratégia ao expor divisões no núcleo bolsonarista e dificultar a tentativa de atrair esses segmentos do eleitorado.
Na terça-feira (24) Michelle publicou um vídeo afirmando ter levado uma “punhalada” no ano passado. A divergência ocorreu quando Michelle criticou a articulação do PL no Ceará para apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo do estado. Ela disse ter sido “maltratada” por Flávio Bolsonaro e afirmou que seu apoio foi tratado como “insignificante”.
À época, o senador reagiu dizendo que Michelle havia “atropelado o próprio presidente Bolsonaro” e afirmou que ela “não é política e precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão”.
Logo depois, em meio à tentativa de construir uma imagem mais conciliadora, Flávio pediu desculpas à ex-primeira-dama. “Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil”, escreveu.
Para Flávia Biroli, professora titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a manifestação de Michelle tem potencial para produzir desgaste justamente entre um público que Flávio tenta conquistar, o feminino.
Segundo Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, a crise complica a estratégia de Flávio não só para ampliar o eleitorado, mas também para atrair apoio de elites políticas que possam lhe dar palanque. “Quanto mais turbulenta for essa campanha, menor será a disposição de aderir a ela”, diz a especialista.
Já a cientista política Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro afirma que dados de monitoramento das redes sociais sugerem que o principal efeito da crise não é a perda de apoio de Flávio entre as mulheres, mas o enfraquecimento da capacidade de unificação do bolsonarismo em torno de uma única liderança. “A crise promove um ruído na campanha”, diz Luciana.
Flávio repete frases usadas por Lula
Como parte da estratégia de moderação, Flávio Bolsonaro vem adotando um discurso de defesa de programas sociais, semelhante ao usado pela esquerda. Durante evento em Guarulhos, em 20 de junho, ele prometeu cumprir um “pacto contra a fome”. Essa foi uma promessa feita por Lula (PT) para o seu primeiro mandato, em 2003.
Dias antes, em evento promovido pela revista Veja, o senador defendeu a manutenção do Bolsa Família e afirmou que o benefício se tornou um “direito adquirido” da população.
Para o consultor de comunicação política Marcelo Vitorino, a estratégia busca ampliar o alcance da candidatura. “A corrente que hoje predomina é a do Lula, que trata muito de pautas sociais. Não existe outro candidato disputando esse espaço. Se Flávio conseguir beliscar 5% desses votos, ele avança sobre o eleitor do adversário”, disse o especialista.
Do site g1.globo.com




